sábado, 30 de novembro de 2013


PRIMEIRA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PAPA FRANCISCO
EVANGELII GAUDIUM
TEXTO NA INTEGRA
26 DE NOVEMBRO DE 2013
RÁDIO VATICANA

PARTE I
1. A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.

1. Alegria que se renova e comunica
2. O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.
3. Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direcção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada. Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores». Como nos faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar «setenta vezes sete» (Mt 18, 22) dá-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e outra a carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!
4. Os livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salvação, que havia de tornar-se superabundante nos tempos messiânicos. O profeta Isaías dirige-se ao Messias esperado, saudando-O com regozijo: «Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo» (9, 2). E anima os habitantes de Sião a recebê-Lo com cânticos: «Exultai de alegria!» (12, 6). A quem já O avistara no horizonte, o profeta convida-o a tornar-se mensageiro para os outros: «Sobe a um alto monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém» (40, 9). A criação inteira participa nesta alegria da salvação: «Cantai, ó céus! Exulta de alegria, ó terra! Rompei em exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e se compadece dos desamparados» (49, 13).
Zacarias, vendo o dia do Senhor, convida a vitoriar o Rei que chega «humilde, montado num jumento»: «Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso» (9, 9). Mas o convite mais tocante talvez seja o do profeta Sofonias, que nos mostra o próprio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto: «O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa» (3, 17).É a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai: «Meu filho, se tens com quê, trata-te bem (...). Não te prives da felicidade presente» (Sir 14, 11.14). Quanta ternura paterna se vislumbra por detrás destas palavras!



5. O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria. Apenas alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação do anjo a Maria (Lc 1, 28). A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1, 41). No seu cântico, Maria proclama: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 47). E, quando Jesus começa o seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se completa!» (Jo 3, 29). O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo» (Lc 10, 21). A sua mensagem é fonte de alegria: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria» (Jo 16, 20). E insiste: «Eu hei-de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 22). Depois, ao verem-No ressuscitado, «encheram-se de alegria» (Jo20, 20). O livro dos Actos dos Apóstolos conta que, na primitiva comunidade, «tomavam o alimento com alegria» (2, 46). Por onde passaram os discípulos, «houve grande alegria» (8, 8); e eles, no meio da perseguição, «estavam cheios de alegria» (13, 52). Um eunuco, recém-baptizado, «seguiu o seu caminho cheio de alegria» (8, 39); e o carcereiro «entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus» (16, 34). Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?
6. Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já nem sei o que é a felicidade (…). Isto, porém, guardo no meu coração; por isso, mantenho a esperança. É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova; é grande a tua fidelidade. (...) Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» (Lm 3, 17.21-23.26).
7. A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Habitualmente isto acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar também a alegria». Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
8. Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

III ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS OS DESAFIOS PASTORAIS SOBRE A FAMÍLIA NO CONTEXTO DA EVANGELIZAÇÃO DOCUMENTO DE PREPARAÇÃO

III ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS

OS DESAFIOS PASTORAIS SOBRE A FAMÍLIA

NO CONTEXTO DA EVANGELIZAÇÃO

DOCUMENTO DE PREPARAÇÃO



Vaticano

2013


I – O SÍNODO: FAMÍLIA E EVANGELIZAÇÃO

 A missão de pregar o Evangelho a cada criatura foi confiada diretamente pelo
Senhor aos seus discípulos, e dela a Igreja é portadora na história. Na época em que
vivemos, a evidente crise social e espiritual torna-se um desafio pastoral, que
interpela a missão evangelizadora da Igreja para a família, núcleo vital da sociedade e
da comunidade eclesial.
 Propor o Evangelho sobre a família neste contexto é mais urgente e necessário
do que nunca. A importância deste tema sobressai do facto que o Santo Padre decidiu
estabelecer para o Sínodo dos Bispos um itinerário de trabalho em duas etapas: a
primeira, a Assembleia Geral Extraordinária de 2014, destinada a especificar o
“status quaestionis” e a recolher testemunhos e propostas dos Bispos para anunciar e
viver de maneira fidedigna o Evangelho para a família; a segunda, a Assembleia
Geral Ordinária de 2015, em ordem a procurar linhas de ação para a pastoral da
pessoa humana e da família.
 Hoje perfilam-se problemáticas até há poucos anos inéditas, desde a difusão dos
casais de facto, que não acedem ao matrimónio e às vezes excluem esta própria ideia,
até às uniões entre pessoas do mesmo sexo, às quais não raro é permitida a adoção de
filhos. Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso
pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimónios mistos ou inter-religiosos;
a família monoparental; a poligamia; os matrimónios combinados, com a consequente
problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o
sistema das castas; a cultura do não-comprometimento e da presumível instabilidade
do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenómenos migratórios e
reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de
matrimónio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na
compreensão do matrimónio e da vida familiar; as tendências de pensamento
subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do
pacto matrimonial; o difundir-se do fenómeno das mães de substituição (“barriga de
aluguel”); e as novas interpretações dos direitos humanos. Mas sobretudo no âmbito
mais estritamente eclesial, o enfraquecimento ou abandono da fé na sacramentalidade
do matrimónio e no poder terapêutico da penitência sacramental.
 A partir de tudo isto compreende-se como é urgente que a atenção do
episcopado mundial, “cum et sub Petro”, enfrente estes desafios. Se, por exemplo,
pensarmos unicamente no facto de que no contexto atual muitos adolescentes e
jovens, nascidos de matrimónios irregulares, poderão nunca ver os seus pais
aproximar-se dos sacramentos, compreenderemos como são urgentes os desafios
apresentados à evangelização pela situação atual, de resto difundida em todas as
partes da “aldeia global”. Esta realidade encontra uma correspondência singular no
vasto acolhimento que tem, nos nossos dias, o ensinamento sobre a misericórdia
divina e sobre a ternura em relação às pessoas feridas, nas periferias geográficas e
existenciais: as expectativas que disto derivam, a propósito das escolhas pastorais
relativas à família, são extremamente amplas. Por isso, uma reflexão do Sínodo dos
Bispos a respeito destes temas parece tanto necessária e urgente quanto indispensável, como expressão de caridade dos Pastores em relação a quantos lhes
são confiados e a toda a família humana.

 II – A IGREJA E O EVANGELHO SOBRE A FAMÍLIA

 A boa nova do amor divino deve ser proclamada a quantos vivem esta
fundamental experiência humana pessoal, de casal e de comunhão aberta ao dom dos
filhos, que é a comunidade familiar. A doutrina da fé sobre o matrimónio deve ser
apresentada de modo comunicativo e eficaz, para ser capaz de alcançar os corações e
de os transformar segundo a vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus.
 A propósito das fontes bíblicas sobre o matrimónio e a família, nesta
circunstância apresentamos somente as referências essenciais. Também no que se
refere aos documentos do Magistério, parece oportuno limitar-se aos documentos do
Magistério universal da Igreja, integrando-os com alguns textos emanados pelo
Pontifício Conselho para a Família e atribuindo aos Bispos participantes no Sínodo a
tarefa de dar voz aos documentos dos seus respectivos organismos episcopais.
 Em todas as épocas e nas culturas mais diversificadas nunca faltou o
ensinamento claro dos Pastores, nem o testemunho concreto dos fiéis, homens e
mulheres que, em circunstâncias muito diversas, viveram o Evangelho sobre a família
como uma dádiva incomensurável para a sua própria vida e para a vida dos sues
filhos. O compromisso a favor do próximo Sínodo Extraordinário é assumido e
sustentado pelo desejo de comunicar esta mensagem a todos, com maior incisividade,
esperando assim que «o tesouro da revelação confiado à Igreja encha cada vez mais
os corações dos homens» (DV 26).
O projeto de Deus Criador e Redentor 
 
A beleza da mensagem bíblica sobre a família tem a sua raiz na criação do 
homem e da mulher, ambos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 24-
31; 2, 4b-25). Ligados por uma vínculo sacramental indissolúvel, os esposos vivem a 
beleza do amor, da paternidade, da maternidade e da dignidade suprema de participar 
deste modo na obra criadora de Deus. 
No dom do fruto da sua união, eles assumem a responsabilidade do 
crescimento e da educação de outras pessoas, para o futuro do género humano. 
Através da procriação, o homem e a mulher realizam na fé a vocação de ser 
colaboradores de Deus na preservação da criação e no desenvolvimento da família 
humana. 
O Beato João Paulo II comentou este aspecto na Familiaris consortio: «Deus 
criou o homem à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26 s.): chamando-o à existência 
por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor (1 Jo 4, 8) e vive em si 
mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e 
conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da 
mulher a vocação e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão  4
(cf. “Gaudium et spes”, 12). O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação 
de cada ser humano» (FC 11). 
Este projeto de Deus Criador, que o pecado original deturpou (cf. Gn 3, 1-24), 
manifestou-se na história através das vicissitudes do povo eleito, até à plenitude dos 
tempos, pois mediante a encarnação o Filho de Deus não apenas confirmou a vontade 
divina de salvação, mas com a redenção ofereceu a graça de obedecer a esta mesma 
vontade. 

O Filho de Deus, Palavra que se fez carne (cf. Jo 1, 14) no seio da Virgem 
Mãe, viveu e cresceu na família de Nazaré, e participou nas bodas de Caná, cuja festa 
foi por Ele enriquecida com o primeiro dos seus “sinais” (cf. Jo 2, 1-11). Ele aceitou 
com alegria o acolhimento familiar dos seus primeiros discípulos (cf. Mc 1, 29-31; 2, 
13-17) e consolou o luto da família dos seus amigos em Betânia (cf. Lc 10, 38-42; Jo 
11, 1-44). 
Jesus Cristo restabeleceu a beleza do matrimónio, voltando a propor o projeto 
unitário de Deus, que tinha sido abandonado devido à dureza do coração humano, até 
mesmo no interior da tradição do povo de Israel (cf. Mt 5, 31-32; 19.3-12; Mc 10, 1-
12; Lc 16, 18). Voltando à origem, Jesus ensinou a unidade e a fidelidade dos 
esposos, recusando o repúdio e o adultério. 
Precisamente através da beleza extraordinária do amor humano – já celebrada 
com contornos inspirados no Cântico dos Cânticos, e do vínculo esponsal exigido e 
defendido por Profetas como Oseias (cf. Os 1, 2-3,3) e Malaquias (cf. Ml 2, 13-16) – 
Jesus confirmou a dignidade originária do amor entre o homem e a mulher. 

O ensinamento da Igreja sobre a família 
 
Também na comunidade cristã primitiva a família se manifestava como “Igreja 
doméstica” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1655): nos chamados “códigos 
familiares” das Cartas apostólicas neotestamentárias, a grande família do mundo 
antigo é identificada como o lugar da solidariedade mais profunda entre esposas e 
maridos, entre pais e filhos, entre ricos e pobres (cf. Ef 5, 21-6, 9; Cl 3, 18-4, 1; 1 Tm 
2, 8-15; Tt 2, 1-10; 1 Pd 2, 13-3, 7; cf., além disso, também a Carta a Filémon). Em 
particular, a Carta aos Efésios identificou no amor nupcial entre o homem e a mulher 
«o grande mistério», que torna presente no mundo o amor de Cristo e da Igreja (cf. Ef 
5, 31-32). 
Ao longo dos séculos, sobretudo na época moderna até aos nossos dias, a Igreja 
não fez faltar um seu ensinamento constante e crescente sobre a família e sobre o 
matrimónio que a fundamenta. Uma das expressões mais excelsas foi a proposta do 
Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição pastoral Gaudium et spes que, 
abordando algumas problemáticas mais urgentes, dedica um capítulo inteiro à 
promoção da dignidade do matrimónio e da família, como sobressai na descrição do 
seu valor para a constituição da sociedade: «A família – na qual se congregam as 
diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais 
plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social –  5
constitui assim o fundamento da sociedade» (GS 52). Particularmente intenso é o 
apelo a uma espiritualidade cristocêntrica dirigida aos esposos crentes: «Os próprios 
esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa ordem verdadeiramente 
pessoal, estejam unidos em comunhão de afeto e de pensamento e com mútua 
santidade, de modo que, seguindo a Cristo, princípio da vida, se tornem pela 
fidelidade do seu amor, através das alegrias e dos sacrifícios da sua vocação, 
testemunhas daquele mistério de amor que Deus revelou ao mundo com a sua morte e 
a sua ressurreição» (GS 52). 
Também os Sucessores de Pedro, depois do Concílio Vaticano II, enriqueceram 
mediante o seu Magistério a doutrina sobre o matrimónio e a família, de modo 
especial Paulo VI com a Encíclica Humanae vitae, que oferece ensinamentos 
específicos a níveis de princípio e de prática. Sucessivamente, o Papa João Paulo II, 
na Exortação Apostólica Familiaris consortio, quis insistir na proposta do desígnio 
divino acerca da verdade originária do amor esponsal e familiar: «O “lugar” único, 
que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio, ou seja o 
pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a 
mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus 
(cfr. Gaudium et spes, 48), que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A 
instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, 
nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de 
amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja 
vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a 
liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo 
e relativismo, tornando-a participante da Sabedoria criadora» (FC 11). 
O Catecismo da Igreja Católica reúne estes dados fundamentais: «A aliança 
matrimonial, pela qual um homem e uma mulher constituem entre si uma 
comunidade íntima de vida e de amor; foi fundada e dotada das suas leis próprias 
pelo Criador: Pela sua natureza, ordena-se ao bem dos cônjuges, bem como à 
procriação e educação dos filhos. Entre os baptizados, foi elevada por Cristo Senhor à 
dignidade de sacramento [cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Gaudium et spes, 48; 
Código de Direito Canónico, cân. 1055 § 1]» (CCC, n. 1660). 
A doutrina exposta no Catecismo refere-se tanto aos princípios teológicos 
como aos comportamentos morais, abordados sob dois títulos distintos: O sacramento 
do matrimónio (nn. 1601-1658) e O sexto mandamento (nn. 2331-2391). Uma leitura 
atenta destas partes do Catecismo oferece uma compreensão atualizada da doutrina da 
fé, em benefício da atividade da Igreja diante dos desafios contemporâneos. A sua 
pastoral encontra inspiração na verdade do matrimónio visto no desígnio de Deus, 
que criou varão e mulher, e na plenitude dos tempos revelou em Jesus também a 
plenitude do amor esponsal, elevado a sacramento. O matrimónio cristão, 
fundamentado sobre o consenso, é dotado também de efeitos próprios, e no entanto a 
tarefa dos cônjuges não é subtraída ao regime do pecado (cf. Gn 3, 1-24), que pode 
provocar feridas profundas e até ofensas contra a própria dignidade do sacramento. 
 «O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; 
penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio.  6
Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do 
reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os 
cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma 
nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio 
de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor 
mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: 
prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio 
maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à 
pessoa amada» (LF 52). «A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a 
dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e 
assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu 
fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa 
fragilidade» (LF 53) 

QUESTIONÁRIO

As seguintes perguntas permitem às Igrejas particulares participar ativamente 
na preparação do Sínodo Extraordinário, que tem a finalidade de anunciar o 
Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família. 
1 - Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da 
família
a}Qual é o conhecimento real , dos ensinamentos da Bília da Gaudiem et spes, da Familiaris consortio 
e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo Igreja Católica? Como os nossos fiéis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da 
Igreja?

b) Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceite integralmente

FALTA PERGUNTA


2 - Sobre o matrimónio segundo a lei natural 
 
a) Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos 
institucional, educativo e académico, quer a nível popular? Que visões da 
antropologia estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da 
família? 
 
b) O conceito de lei natural em relação à união entre o homem e a mulher é 
geralmente aceite, enquanto tal, por parte dos batizados? 
 
c) Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o 
homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e 
aprofundada nos organismos civis e eclesiais? 
 
d) Quando a celebração do matrimónio é pedida por batizados não praticantes, 
ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que disto 
derivam? 
 
3 – A pastoral da família no contexto da evangeliz

A pastoral da família no contexto da evangelização 
 
a) Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à 
preparação para o matrimónio? Como se procurou estimular a tarefa de 
evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a 
consciência da família como “Igreja doméstica”? 
 
b) Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à 
complexidade da vida e da cultural contemporânea? 
 
c) Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs 
souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé? 
 
d) De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar 
souberam criar percursos exemplares? 
 
e) Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, 
em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje 
credível? 
 
f) Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais 
em formação e dos casais em crise? 

4 – Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis 
 
a) A convivência ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja 
particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente? 
 
b) Existem uniões livres de facto, sem o reconhecimento religioso nem civil? 
Dispõem-se de dados estatísticos confiáveis? 
 
c) Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral 
relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-los 
numericamente? Como se enfrenta esta realidade, através de programas 
pastorais adequados? 
 
d) Em todos estes casos: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão 
conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se 
marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os 
sacramentos? 
 
e) Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, 
a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas 
que se encontram em tais situações, quantas quantas pedem estes sacramentos? 
 
f) A simplificação da praxe canónica em ordem ao reconhecimento da 
declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma 
contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas 
interessadas? Se sim, de que forma? 
 
g) Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta 
atividade pastoral? Existem programas a este propósito, nos planos nacional e 
diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados 
recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé? 
 
5 - Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo 
 
a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas 
do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio? 
 
b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil 
promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas 
envolvidas neste tipo de união? 
 
c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em 
conformidade com este tipo de união? 
  9
d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é 
necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé? 
 
6 - Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios 
irregulares 
 
a) Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em 
relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas? 
 
b) Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os 
sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensinamento da religião em geral? 
 
c) Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas 
crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos? 
 
d) Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a 
administração do sacramento e o acompanhamento? 
 
7 - Sobre a abertura dos esposos à vida 
 
a) Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae 
a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral 
dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos 
poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral? 
 
b) Esta doutrina moral é aceite? Quais são os aspectos mais problemáticos que 
tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais? 
 
c) Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para 
ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae? 
 
d) Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da 
penitência e na participação na Eucaristia? 
 
e) Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da 
Igreja e a educação civil? 
 
f) Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer 
o aumento dos nascimentos? 
 
8 - Sobre a relação entre a família e a pessoa 
 
a) Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar 
privilegiado para que isto aconteça?  

b) Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se 
um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo? 
 
c) Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, 
incidem sobre a vida familiar? 
 
9 - Outros desafios e propostas 
 
Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste 
questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?