DOCUMENTOS DA CNBB – 84
Capítulo 2
A CAtequese nA missão
evAngelizAdorA dA igrejA
“ide pelo mundo inteiro e anunciai
a Boa-Nova a toda criatura!” (Mc 16,15).
1. Fé e sentido da vida
15. Em nossa existência, procuramos o sentido da vida.
O que significa ser pessoa humana, viver muitos ou
poucos anos? O que estamos fazendo aqui? De onde
viemos? para onde vamos? Essas e outras perguntas
existenciais são um ponto de partida e de contínua
referência na catequese. Da capacidade de levar
em conta essas perguntas depende a relevância da
catequese para as pessoas às quais se destina. A
busca de Deus na história da humanidade se enraí-
za nas perguntas que as pessoas fazem quando se
inquietam sobre a vida, o mundo. A fé cristã nos faz
reconhecer um propósito na existência: não somos
frutos do acaso, fazemos parte de uma história que
se desenrola sob o olhar amoroso de Deus.
16. É algo de extraordinário o fato de Deus,
transcendente e onipotente, querer comunicar-se
comos seres humanos. De muitas maneiras Ele, no
passado, falou a nossos pais na fé. De um modo
perfeito e definitivo revelouse plenamente em Jesus
Cristo (cf. Hb 1,1-2). Hoje Ele continua a se fazer
presente em nossas vidas: sua palavra se encontra
nas Sagradas Escrituras, na igreja, na liturgia, nas
pessoas, nos acontecimentos. “Cristo está sempre
presente em sua igreja, e especialmente nas ações
litúrgicas. Está presente no sacrifício da missa,
tanto na pessoa do ministro, pois aquele que agora
se oferece pelo ministério sacerdotal é o ‘mesmo
que, outrora, se ofereceu na cruz’, como sobretudo
nas espécies eucarísticas. Ele está presente pela sua
virtude nos sacramentos, de tal modo que, quando
alguém batiza, é o próprio Cristo quem batiza. Está
presente na sua palavra, pois é Ele quem fala quando
na igreja se leem as Sagradas Escrituras. Está
presente, por fim, quando a Igreja ora e salmodia,
Ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem
reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles’
(Mt 18,20)” (SC 7; cf. DV 4).
17. A revelação nos apresenta, desde o começo, um
Deus que quer vida em plenitude para seus filhos.
O Deuteronômio nos mostra, como resumo da lei
do Senhor, o próprio Deus desejando que cada um
seja sábio o bastante para optar pelo melhor caminho:
“[...] escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu
e teus descendentes, amando ao Senhor, teu Deus,
obedecendo à sua voz e apegando-te a Ele — pois
Ele é a tua vida [...]” (Dt 30,19-20). A revelação nos
encaminha, portanto, a uma catequese que responda
aos anseios humanos e promova uma vida mais
gratificante para todos, como estava desde sempre
no desígnio de Deus.
18. pela evangelização, catequese e liturgia, essa
palavra de Deus continua a chegar às pessoas. Essa
comunicação da fé, hoje, segue o mesmo processo
pelo qual Deus, no passado, se revelou. por isso,
para compreender bem as tarefas e o conteúdo
da catequese, é necessário aprofundar as relações
existentes entre revelação e catequese.
2. revelação e Palavra de deus
2.1. Deus, em Jesus Cristo, revela-se como
Pai Misericordioso
19. A constituição conciliar Dei Verbum afirma que
nosso Deus, pai Misericordioso, quis revelar-se a
si mesmo. Em sua bondade e sabedoria Ele nos dá
a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9).
“Deus, que cria e conserva todas as coisas por meio
do Verbo, oferece à humanidade, nas coisas criadas,
um testemunho permanente de si” (DV 3), e pelo
Espírito Santo nós homens e mulheres podemos
participar da sua natureza divina (cf. 2pd 1,4; DV 2).
O Catecismo1
confirma: o ser humano pode chegar
até Deus ouvindo a mensagem da criação, e por isso
toda pessoa humana é capaz de Deus (cf. 27-28; rm
1,19-20). Essa condição nos é dada porque “o Deus
invisível” (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), levado por seu
grande amor, nos fala como amigos, convidando nos
à comunhão (cf. DV 2). O Deus da misericórdia
sempre esteve presente na história dos povos e de
cada consciência e assim, “nos corações dos homens
de boa vontade, a graça podia operar de modo
invisível” (GS 22, 5), “a fim de dar a vida eterna a
todos aqueles que, pela perseverança na prática do
bem, procuram a Salvação (cf. rm 2,6-7)” (DV 3).
20. O Deus, que quis revelar-se a todos através das
maravilhas do mundo e do ser humano criado à sua
imagem, e que vem ao encontro de todos aqueles
que sinceramente o buscam nas diversas religiões,
em sua misericórdia quis levar a termo a esperança
de toda a humanidade escolhendo para si um povo,
para revelar-se pessoalmente e acompanhá-lo em
sua história. Assim, o Deus de Abraão, isaac e de
Jacó fez-se Salvador para todos os povos na plenitude
dos tempos (cf. DV 2-3; GS 22, 5). Tal revelação
tem sua plenitude na pessoa de Jesus Cristo,
em suas obras e palavras, em sua vida, toda ela
1
Daqui para a frente, quando neste Diretório Nacional de Catequese se citar
apenas a palavra Catecismo, sempre se referirá ao Catecismo da Igreja Católica.
salvífica, e, principalmente, em seu mistério pascal.
Ele nos mostra a face misericordiosa do pai e nos
dá os meios de nos tornarmos participantes de sua
natureza divina (cf. 2pd 1,4). Através dele, na força
do Espírito Santo, temos acesso a Deus, nosso pai
(cf. Jo 1,12; At 17,18; 2Cor 3,18). para se comunicar
conosco, em sua infinita bondade, Ele se serve de
acontecimentos e palavras intrinsecamente unidas,
num processo progressivo e por etapas: é a pedagogia
divina. Ele se revela inserido na vida e na
história humana, respeitando nossas capacidades e
modo de ser.2
21. Deus assim se revela desde os inícios a nossos pais.
Após a queda (cf. Gn 3,15), Ele prometeu-nos a
esperança da Salvação e ofereceu-nos sua Aliança;
chamou Abraão para dele fazer um grande povo, por
meio de Moisés e os profetas, ajudando este povo a
conhecê-lo como Deus vivo e verdadeiro, pai providente
e justo Juiz, e a esperar o Salvador prometido
(cf. DV 3). Jesus, Verbo feito carne, plenitude da
revelação, revela os segredos do pai, liberta-nos
do pecado e da morte e nos garante a ressurreição
(cf. DV 4). Em sua missão Ele usou a mesma pedagogia
do pai; fez-se um de nós, partilhando nossas
alegrias e sofrimentos, usando nossa linguagem
2
Outros aspectos da pedagogia de Deus e suas
conseqüências para a catequese
serão vistos no capítulo quinto, 138-1
(cf. GS 22). Seus discípulos, instruídos por Ele
mesmo e revestidos do seu Espírito em pentecostes,
são testemunhas do mistério de sua pessoa, palavra
de Vida que tocaram com as próprias mãos (cf. 1Jo
1,1), e foram enviados pelo ressuscitado a todos os
povos (cf. Mt 28,19-20) para convidá-los ao banquete
do Amor Comunhão, tornando se filhos do
pai Misericordioso, discípulos de Cristo e templos
do Espírito Santo.
22. Essa boa notícia da Salvação (Evangelho) é para
toda a humanidade. Jesus deu aos discípulos a missão
de evangelizar (cf. Mc 13,10; Mt 28,18-20; lc
4,1819). Essa missão é fonte da verdade salvífica, de
toda disciplina de costumes comunicando os dons
divinos, e isso foi fielmente realizado pelos apóstolos
(cf. DV 7). A igreja, sinal (sacramento) supremo
de sua presença salvadora na história, transmite a
revelação e anuncia a Salvação através do mesmo
processo pedagógico de palavras e obras, sobretudo
nos sacramentos. Ela está convencida de que
sua principal tarefa é comunicar esta Boa-Nova aos
povos: ela está a serviço da evangelização, exercendo
o ministério da Palavra do qual faz parte a
catequese.
2.2. A Palavra de Deus, fundamento da catequese
23. O conjunto das obras realizadas por Deus ao longo
da História da Salvação, com as obras e mensagens
dos profetas, é revelação de Deus, que em Jesus
Cristo, em sua vida e palavra não só alcança o mais
elevado grau, mas se constitui no critério absoluto
de interpretação da história salvífica anterior. “Os
apóstolos, transmitindo aquilo que eles próprios
receberam, exortam os fiéis a manter as tradições
que aprenderam, seja oralmente, seja por carta (cf.
2Ts 2,15), e a combater pela fé que se lhes transmitiu
uma vez para sempre (cf. Jd 3)” (DV 8, 1).
A pregação apostólica é “expressa de um modo especial
nos livros inspirados” (DV 8).
24. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto
é redigida sob a moção do Espírito Santo (cf. DV
9). A Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente
aos sucessores dos apóstolos a palavra
de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito
Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito
da Verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem,
exponham e difundam; resulta assim que
não é através da Escritura apenas que a igreja deriva
sua certeza a respeito de tudo o que revelado (cf.
DV 9). “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura
constituem um só sagrado depósito da palavra
de Deus, confiado à Igreja” (DV 10, 1). O ofício
de interpretar autenticamente a palavra de Deus
escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao
Magistério vivo da igreja, cuja autoridade, exercida
em nome de Jesus Cristo, não está acima da
palavra de Deus, mas a seu serviço. O Magistério,
por mandato divino e com a assistência do Espírito
Santo, piamente ausculta essa palavra, santamente a
guarda e fielmente a expõe (cf. DV 10, 2). para que
seja permanente o diálogo de Deus com a igreja,
a Nova Aliança se expressa e se realiza de modo
sublime na palavra da Escritura e na celebração da
liturgia (cf. DV 8, 3). “Os bispos e os fiéis colaboram
estreitamente na conservação, exercício e profissão
da fé transmitida” (DV 10, 1). Não só o Magistério
é portador da Tradição, mas todos aqueles que
“contribuem para santamente conduzir a vida e
fazer crescer a fé do povo de Deus” (cf. DV 8, 1).
A compreensão do depósito da fé cresce também
pelo sincero trabalho dos catequistas e pelo vigor
da teologia, em união com os pastores. Assim, “pelo
Espírito Santo a voz viva do Evangelho ressoa na
igreja e através dela no mundo” (DV 8, 3).
25. Ao tesouro da Tradição pertence também o
testemunho dos que ouviram e vivenciaram essa
palavra
transmitida de geração em geração (cf. 1Mc 12,9;
rm 15,4; 2Tm 3,16-17). A Palavra de Deus, assim
amplamente entendida, está presente e ressoa na
Tradição dos santos padres, no tesouro da liturgia,
no Magistério dos pastores, no testemunho dos
mártires e na vida dos santos, no trabalho dos
missionários, na religiosidade do povo, na caridade
viva dos cristãos... (cf. DGC 95). É essa Palavra
que ilumina nossa existência e continua sendo
o caminho da revelação de Deus para nós hoje.
por isso, a fonte da evangelização e catequese é a
Palavra de Deus. A igreja transmite e esclarece os
fatos e palavras da revelação e, à sua luz, interpreta
os sinais dos tempos e a nossa vida nos quais se
realiza o desígnio salvífico de Deus (cf. DGC 39),
para que “o mundo ouvindo creia, crendo espere e
esperando ame” (DV 1 citando santo Agostinho).
26. Deus na Sagrada Escritura falou através de homens
e mulheres, e de modo humano. A catequese tem
como tarefa proporcionar a todos o entendimento
claro e profundo de tudo o que Deus nos quis transmitir:
investigar com seriedade e entender o que
os escritores sagrados escreveram para manifestar
o que Deus nos quer falar. É importante conhecer
as circunstâncias, o tempo, a cultura, os modos de
se expressar para comunicar. O mais importante
para esse entendimento da palavra de Deus e sua
vivência é ler a Sagrada Escritura naquele mesmo
Espírito em que foi escrita: é o Espírito Santo quem
ajuda a apreender com exatidão o sentido dos textos
sagrados e seu conteúdo (cf. DV 12).
27. A catequese é um dos meios pelos quais Deus
continua hoje a se manifestar às pessoas. Ela atualiza
a revelação acontecida no passado. O catequista
experimenta a palavra de Deus em sua boca, à
medida que, servindo-se da Sagrada Escritura e dos
ensinamentos da igreja, vivendo e testemunhando
sua fé na comunidade e no mundo, transmite para
seus irmãos essa experiência de Deus. “A fidelidade
a Deus se expressa na catequese como fidelidade à
palavra outorgada em Jesus Cristo. O catequista não
prega a si mesmo, mas a Jesus Cristo, sendo fiel à
palavra e à integridade de sua mensagem” (P 954).
Ele é também um profeta, pois faz ecoar a palavra
de Deus na comunidade, tornando-a compreensível.
Catequese (katá-ekhein, em grego) significa ressoar;
a igreja dá-lhe o sentido de ressoar a Palavra de
Deus hoje (cf. CR 31).
28. A revelação é de iniciativa divina; a nós compete a
resposta da fé, adesão livre e obediente à “Boa-Nova
da graça de Deus” (cf. fl 2,16; 1Ts 2,8; At 15,26;
At 20,24), com pleno assentimento da vontade e
da inteligência. Guiados pela fé, dom do Espírito
Santo, chegamos a contemplar e experimentar, na
consciência, na liturgia e na vida, o Deus de amor,
revelado em Cristo Jesus (cf. DGC 15b).
3. evangelização e catequese
29. O desafio da Igreja é a evangelização do mundo
de hoje, mesmo em territórios onde a igreja já se
encontra implantada há mais tempo. Nossa realidade
pede uma nova evangelização. A catequese
coloca-se dentro dessa perspectiva evangelizadora,
mostrando uma grande paixão pelo anúncio do
Evangelho.
3.1. Primeiro anúncio e catequese
3.1.1. primeiro anúncio e evangelização
30. A igreja “existe para evangelizar”, isto é, para
anunciar a Boa Notícia do reino, proclamado e
realizado em Jesus Cristo (cf. EN 14): é sua graça
e vocação própria. O centro do primeiro anúncio
(querigma) é a pessoa de Jesus, proclamando o
Reino como uma nova e definitiva intervenção de
Deus que salva com um poder superior àquele que
utilizou na criação do mundo.3
Essa Salvação “é o
grande dom de Deus, libertação de tudo aquilo que
oprime a pessoa humana, sobretudo do pecado e do
Maligno, na alegria de conhecer a Deus e ser por Ele
conhecido, de o ver e se entregar a Ele” (EN 9; DGC
101). Transmitindo a mensagem do reino, a catequese
a desenvolve, aprofunda e mostra suas repercussões
para as pessoas e para o mundo (cf. CT 25).
31. Na explicitação do primeiro anúncio querigmático,
sublinham-se os seguintes elementos essenciais (cf.
DGC 102):
3
“[...] o sacrifício de Cristo, nossa páscoa, na plenitude dos tempos ultrapassa
em grandeza a criação do mundo realizada no princípio” (Missal Romano
– Vigília Pascal, oração após a 1ª leitura; citado no DGC 101, nota 33
a) em Jesus, que anuncia a chegada do reino, Deus
se mostra pai amoroso. Na vida e mistério pascal
de Jesus, o pai o revela como seu único filho
eterno, feito homem no qual o reino já está
realmente presente;
b) a Salvação, em Jesus, consiste na acolhida e
comunhão com Deus, como pai, no dom da
filiação divina que gera fraternidade. É uma
Salvação integral que começa aqui e se projeta
na eternidade;
c) Deus, que nos criou sem nós, não quer salvar-nos
sem nossa participação e responsabilidade (cf.
santo Agostinho): somos chamados à conversão
e a crer no Evangelho do reino, que é um reino
de justiça, amor e paz, e à luz do qual seremos
julgados;
d) o reino que se inaugura em Jesus, constituído
Senhor por seu mistério pascal, já está presente em
mistério aqui na terra e será levado à plena realização
quando se manifestar na glória (cf. GS 39);
e) a igreja, comunidade dos que creem em Jesus,
constitui o germe e o início desse reino, que,
como fermento na massa ou pequena semente,
torna-se imensa árvore, vai crescendo e se
expressando na cultura dos povos, no diálogo com eles;
f) nossa vida e história não caminham para o nada,
mas, em seus aspectos de graça e pecado, são
assumidas por Deus para serem transformadas
no futuro glorioso no qual Deus será tudo em
todos (cf. 1Cor 15,28; Cl 3,11; rm 9,5): essa é a
nossa feliz esperança.
32. Além de significar o primeiro anúncio ou anúncio
missionário com o objetivo de converter quem não é
cristão, evangelização tem um sentido mais amplo:
é tudo o que a igreja realiza para suscitar e alimentar
a fé dos fiéis e para transformar o mundo à luz
dos valores do reino de Deus (cf. GS 39, 89 e 91).
A evangelização implica não apenas o anúncio do
Evangelho por palavras, mas também a vida e ação
da igreja; envolve os gestos sacramentais, dentro da
comunidade viva que celebra o mistério do amor do
pai em Cristo, no Espírito Santo; implica também
a promoção da justiça e da libertação; apresenta-se
não apenas como caminho que vai da comunidade
cristã para o mundo, mas também como acontecimento
no mundo, dentro do qual Deus continua sua
obra salvífica.
3.1.2. Catequese e evangelização
33. A evangelização é uma realidade rica, complexa e
dinâmica, que compreende momentos essenciais,
e diferentes entre si (cf. CT 18 e 20; DGC 63): o
primeiro momento é o anúncio de Jesus Cristo
(querigma); a catequese, um desses “momentos
essenciais”, é o segundo, dando-lhe continuidade.
Sua finalidade é aprofundar e amadurecer a fé,
educando o convertido para que se incorpore à
comunidade cristã. A catequese sempre supõe a
primeira evangelização. por sua vez, à catequese
segue-se o terceiro momento: a ação pastoral para os
fiéis já iniciados na fé, no seio da comunidade cristã
(cf. DGC 49), através da formação continuada.
4
Catequese e ação pastoral se impregnam do ardor
missionário, visando à adesão mais plena a Jesus
Cristo. A atividade da igreja, de modo especial a
catequese, traduz sempre a mística missionária que
animava os primeiros cristãos. A catequese exige
conversão interior e contínuo retorno ao núcleo do
Evangelho (querigma), ou seja, ao mistério de Jesus
Cristo em sua páscoa libertadora, vivida e celebrada
continuamente na liturgia. Sem isso, ela deixa de
produzir os frutos desejados. Toda ação da igreja
leva ao seguimento mais intenso de Jesus (cf. CR
64) e ao compromisso com seu projeto missionário.
3.2. Conversão, seguimento, discipulado,
comunidade
34. O fruto da evangelização e catequese é o fazer
discípulos: acolher a palavra, aceitar Deus na
4
para maior esclarecimento e aprofundamento dos conceitos de evangelização,
catequese, ação pastoral, iniciaçãocristã, formaçãocontinuada, catecumenato
etc., pode-se consultar CNBB, Com adultos catequese adulta, Estudos da CNBB
80, 2001, cap. iV, nn. 86-124. Sobre a “originalidade da pedagogia da fé”, cf.
abaixo 146-14
própria vida, como dom da fé. Há certas condições
da nossa parte, que se resumem em duas palavras
evangélicas: conversão e seguimento. A fé é como
uma caminhada, conduzida pelo Espírito Santo, a
partir de uma opção de vida e uma adesão pessoal
a Deus, através de Jesus Cristo, e ao seu projeto
para o mundo. isso supõe também a aceitação
intelectual, o conhecimento da mensagem de Jesus.
O seguimento de Jesus Cristo realiza-se, porém,
na comunidade fraterna. O discipulado, que é o
aprofundamento do seguimento, implica renúncia
a tudo o que se opõe ao projeto de Deus e que
diminui a pessoa. leva à proximidade e intimidade
com Jesus Cristo e ao compromisso com a
comunidade e com a missão (cf. CR 64-65; AS 127c).
4. nova compreensão do ministério
da catequese
4.1. Catequese a serviço da iniciação cristã
35. No início do cristianismo, a catequese era o período
em que se estruturava a conversão.
Os já evangelizados eram iniciados no mistério da Salvação
e em um estilo evangélico de ser: experiência de
vida cristã, ensinamento sistematizado, mudança
de vida, crescimento na comunidade, constância
na oração, alegre celebração da fé e engajamento
missionário. Esse longo processo de iniciação,
chamado catecumenato, se concluía com a imersão
no mistério pascal através dos três grandes
sacramentos: Batismo, Confirmação e Eucaristia.
A catequese estava, pois, a serviço da iniciação
cristã.
36. A situação do mundo atual levou a igreja no
Vaticano ii a propor a restauração do catecumenato
(cf. SC 64; CD 14; cf. AG 14). O Batismo
de crianças, que as introduz na vida da graça,
exige uma continuação, uma iniciação vivencial
nos mistérios da fé (a pessoa de Jesus, a igreja,
a liturgia, os sacramentos) através da catequese.
Esse processo catequético possibilita também aos
já batizados (adultos, jovens, crianças) assumir
conscientemente a própria vida cristã. para os
não-batizados, a catequese se apresenta como
processo catecumenal para a vida cristã (cf. CR
65; DGC 64).
4.1.1. O significado de iniciação no processo catequético
37. A iniciação possui uma raiz antiqüíssima nas
culturas humanas. Elas a valorizavam muito, sobretudo
nos ritos de passagem e pertença (batismo,
circuncisão, ablação, casamento, desafios perigosos
etc.), com destaque para a entrada na vida adulta.
Nossa sociedade perdeu, quase por completo, esse
elemento cultural, permanecendo alguns resquí-
cios (festa das debutantes, rituais de acolhida em
certos grupos, o recebimento dos calouros etc.). O
noviciado permanece hoje com características de
iniciação à vida religiosa. A iniciação consistia num
processo a ser percorrido, com metas, exercícios e
ritos. Considerada como parte da iniciação cristã
(cf. AG 14; RICA 19), a catequese não é uma supérflua
introdução na fé, um verniz ou um cursinho
de admissão à igreja. É um processo exigente, um
itinerário prolongado de preparação e compreensão
vital, de acolhimento dos grandes segredos da fé
(mistérios), da vida nova revelada em Cristo Jesus
e celebrada na liturgia.
4.1.2. Exigências da iniciação à vida cristã
38. A catequese, como elemento importante da inicia-
ção à vida cristã, implica um longo processo vital
de introdução dos cristãos ainda não plenamente
iniciados, seja qual for a sua idade, nos diversos
aspectos essenciais da fé cristã. Trata, de forma
sistemática, de um todo elementar e coerente, que
forneça base sólida para a caminhada
“rumo à maturidade em Cristo” (cf. Ef 4,13),
com as seguintes dimensões, interligadas entre si:
a) descoberta de si mesmo (dimensão antropoló-
gica ou tornar-se pessoa na ótica da fé);
b) experiência de Deus (dimensão afetivo-interpretativa);
c) anúncio e adesão a Jesus Cristo (dimensão cristológica);
d) vida no Espírito (dimensão pneumatológica);
e) celebração litúrgica e oração (dimensão celebrativa);
f) participação na comunidade (dimensão comunitário-participativa);
g) interação fé e vida, e serviço fraterno, de acordo
com os valores do reino (dimensão sociotransformadora e inculturada);
h) a formulação da fé (dimensão intelectual ou
doutrinal);
i) o diálogo com outros caminhos e tradições
espirituais (dimensão ecumênica e de diálogo
inter-religioso);
j) o relacionamento de cuidado com o cosmo
(dimensão ecológica ou cósmica).
4.2. Natureza da catequese
39. A catequese é, em primeiro lugar, uma ação eclesial:
a igreja transmite a fé que ela mesma vive, e
o catequista é um porta-voz da comunidade e não
de uma doutrina pessoal (cf. CR 145). Ela transmite
o tesouro da fé (traditio) que, uma vez recebido,
vivido e crescido no coração do catequizando, enri
quece a própria igreja (redditio).5
Ela, ao transmitir
a fé, gera filhos pela ação do Espírito Santo e os
educa maternalmente (cf. DGC 78-79). A catequese
faz parte do ministério da palavra e do profetismo
eclesial. O catequista é um autêntico profeta, pois
pronuncia a palavra de Deus, na força do Espírito
Santo. fiel à pedagogia divina, a catequese ilumina
e revela o sentido da vida.
40. A catequese possui algumas características
fundamentais:
a) ser um aprendizado dinâmico da vida cristã, uma
iniciação integral que favoreça o seguimento de
Jesus Cristo;
b) fornecer uma formação de base essencial, centrada
naquilo que constitui o núcleo da experiência
cristã (a fé, a celebração e a vivência da páscoa
de Jesus), lançando os fundamentos do edifício
espiritual do cristão (cf. 1Cor 3,10-18; is 28,16;
1pd 2,4; 2Cor 6,16);
c) possibilitar a incorporação na comunidade cristã:
nela, a catequese vai além do ensino, põe em
5
No catecumenato primitivo, a traditio era o rito da entrega do pai-Nosso e do
Credo ao catecúmeno, e a redditio consistia numa espécie de avaliação, pela
qual o catecúmeno demonstrava a assimilação do conteúdo da fé. Aqui os dois
termos são tomados em seu sentido figurado, conforme se diz no texto; significa
também que a igreja, transmitindo os tesouros da sua mensagem às diversas
culturas (traditio), enriquece o próprio “depósito da fé” com novas expressões
(redditio), ou seja, encarna-se nestas culturas (inculturação: cf. 49d, abaixo).
prática a dinâmica do encontro com Jesus Cristo
vivo e da experiência do Evangelho, celebra e
alimenta a fé nas celebrações e na liturgia;
d) proporcionar formação orgânica e sistemática
da fé;
e) desenvolver o compromisso missionário, inerente
à ação do Espírito Santo, para o estabelecimento
do reino de Deus no coração das pessoas, em
suas relações interpessoais e na organização da
sociedade;
f) fomentar o diálogo com outras experiências
eclesiais (ecumenismo), religiosas (diálogo
inter-religioso) e com o mundo, testemunhando a
convivência fraterna com o diferente;
g) despertar o compromisso com a ação
sociotransformadora à luz da palavra de Deus e dos
ensinamentos da igreja.
41. por ser educação orgânica e sistemática da fé, a
catequese se concentra naquilo que é comum para
o cristão, educa para a vida de comunidade, celebra
e testemunha o compromisso com Jesus. Ela exerce,
portanto, ao mesmo tempo, as tarefas de iniciação,
educação e instrução (cf. DGC 68). É um processo
de educação gradual e progressivo, respeitando os
ritmos de crescimento de cada um.
42. A catequese possui forte dimensão antropológica.
E, por isso, ela precisa assumir as angústias
e esperanças das pessoas, para oferecer-lhes as
possibilidades da libertação plena trazida por Jesus
Cristo. Nessa perspectiva, as situações históricas
e as aspirações autenticamente humanas são parte
indispensável do conteúdo da catequese. Elas
devem ser interpretadas seriamente, dentro de seu
contexto, a partir das experiências vivenciais do
povo de israel, à luz de Cristo e na comunidade
eclesial, na qual o Espírito de Cristo ressuscitado
vive e opera continuamente (cf. Medellín, Cat. 6;
CR 70, 116).
4.3. Finalidade da catequese
43. A finalidade da catequese é aprofundar o primeiro
anúncio do Evangelho: levar o catequizando a conhecer,
acolher, celebrar e vivenciar o mistério de
Deus, manifestado em Jesus Cristo, que nos revela
o pai e nos envia o Espírito Santo. Conduz à entrega
do coração a Deus, à comunhão com a igreja, corpo
de Cristo (cf. DGC 80-81; Catecismo 426-429), e à
participação em sua missão.
44. A dimensão eclesial é essencial à fé cristã (cf. LG
9): cada batizado professa individualmente a fé,
explicitada no Credo apostólico chamado “Símbolo”,
pois manifesta a identidade de nosso compromisso
cristão. Mas cada um recebe, professa, alimenta
e vive essa fé na igreja e através dela. “O Creio e
o Cremos se implicam mutuamente. Ao fundir a
sua confissão com a confissão da Igreja, o cristão
é incorporado à sua missão: ser sacramento de
Salvação para a vida do mundo. quem proclama a
profissão de fé assume compromissos que, não
poucas vezes, atrairão a perseguição.
Na história cristã, os mártires são os anunciadores
e as testemunhas por excelência” (DGC 83).
4.4. A catequese inspirada no processo catecumenal
45. Os que recebem a catequese são chamados de
“catequizandos”, se já receberam o Batismo, e de
“catecúmenos”, quando se preparam para receber
esse sacramento (cf. DGC 90, nota 60; 16, 29, 66
etc.). para todos a catequese quer garantir uma
formação integral, num processo em que estejam
presentes a dimensão celebrativo-litúrgica da fé, a
conversão para atitudes e comportamentos cristãos
e o ensino da doutrina (cf. DGC 29, 88, 89): é a
inspiração catecumenal que deve iluminar qualquer
processo catequético.
46. A inspiração catecumenal, que remonta ao início
da igreja e à época dos Santos padres, é uma ação
gradual e se desenvolve em quatro tempos, como
é apresentado no Ritual de Iniciação Cristã de
Adultos (nn. 6-7: DGC 88):
a) o pré-catecumenato: é o momento do primeiro
anúncio, em vista da conversão, quando se
explicita o querigma (primeira evangelização)
e se estabelecem os primeiros contatos com a
comunidade cristã (cf. RICA 9-13);
b) o catecumenato propriamente dito: é destinado
à catequese integral, à entrega dos evangelhos,
à prática da vida cristã, às celebrações e ao
testemunho da fé (cf. RICA 14-20);
c) o tempo da purificação e iluminação:
é dedicado a preparar mais intensamente o espírito e
o coração do catecúmeno, intensificando a conversão
e a vida interior (cf. RICA 21-26); nesta
fase recebem o PaiNosso e o Credo; no final
recebem os sacramentos da iniciação: Batismo,
Confirmação e Eucaristia (cf. RICA 27-36);
d) o tempo da mistagogia: visa ao progresso no
conhecimento do mistério pascal através de
novas explanações, sobretudo da experiência
dos sacramentos recebidos, e ao começo da
participação integral na comunidade (cf. RICA
37-40).
47. A formação propriamente catecumenal, conforme a
mais antiga tradição, realiza-se através da narração
das experiências de Deus, particularmente da
História da Salvação mediante a catequese bíblica. A
preparação imediata ao Batismo é feita por meio da
catequese doutrinal, que explica o Símbolo Apostólico
e o Pai-Nosso, com suas implicações morais.
Esse processo é acompanhado de ritos e escrutínios
A etapa que vem depois dos sacramentos de inicia-
ção, mediante a catequese mistagógica, ajuda os
neobatizados a impregnar-se dos sacramentos e a
incorporar-se na comunidade (cf. DGC 89; cf. CR
222).
48. Essas etapas da tradição catecumenal pré-batismal
inspiram também todo e qualquer tipo de catequese
pós-batismal. porém, entre catequizandos e catecú-
menos, e entre catequese pós-batismal e catequese
pré-batismal, existe uma diferença fundamental:
os primeiros já foram introduzidos na igreja,
mergulhados em Cristo por meio do Batismo.
Sua conversão se fundamenta, portanto, nesse
Batismo já recebido, cuja graça devem desenvolver
(cf. RICA 295; DGC 90).
49. Diante dessa substancial diferença, é preciso ter
presentes estes elementos do catecumenato
batismal: eles são fonte de inspiração para a
catequese pós-batismal (cf. DGC 91):
a) O catecumenato batismal recorda constantemente
à igreja a importância fundamental da
função da iniciação à vida cristã, que envolve
“o anúncio da palavra, o acolhimento do Evangelho,
acarretando uma conversão, a profissão
de fé, o Batismo, a efusão do Espírito Santo, o
acesso à Comunhão Eucarística” (CDC 1229). A
pastoral de iniciação cristã é vital para a igreja
particular
b) O catecumenato batismal é responsabilidade da
comunidade cristã. De fato, tal iniciação cristã
deve ser obra não apenas dos catequistas e dos
presbíteros, mas também da comunidade de fiéis
e, sobretudo, dos padrinhos (cf. AG 14d).
A instituição catecumenal incrementa assim, na igreja,
a consciência da sua maternidade espiritual.
c) O catecumenato batismal é impregnado pelo
mistério da Páscoa de Cristo. por isso, “toda
iniciação deve ter caráter pascal” (RICA 8). A
Vigília pascal, centro da liturgia cristã, e a espiritualidade
batismal são inspiração para qualquer
processo catequético.
d) O catecumenato batismal é lugar privilegiado
de inculturação.
6
Seguindo o exemplo da Encarnação do filho de Deus,
que, assumindo
nossa realidade, foi em tudo semelhante a nós,
menos no pecado (cf. Hb 4,15), a igreja acolhe
os catecúmenos integralmente, com os seus vínculos
culturais, purificados à luz do Evangelho.
A ação catequizadora participa dessa função de
incorporar na catolicidade da igreja as autênticas
“sementes da palavra”, disseminadas nos indiví-
duos e nos povos.
e) A concepção do catecumenato batismal, como
processo formativo e verdadeira escola de fé,
oferece à catequese pós-batismal uma dinâmica
e algumas notas qualificativas: a intensidade e a
integridade da formação; o seu caráter gradual,
com etapas definidas; a sua vinculação com ritos,
símbolos e sinais, especialmente bíblicos e litúrgicos;
a sua constante referência à comunidade
eclesial. A catequese pós-batismal não precisa
reproduzir ao pé da letra o catecumenato batismal.
porém, reconhecendo aos catequizandos
a sua realidade de batizados, inspira-se nessa
“escola preparatória à vida cristã”, deixando-se
fecundar pelos seus principais elementos.
50. A catequese não prepara simplesmente para este
ou aquele sacramento. O sacramento é uma conseqüência
de uma adesão à proposta do reino,
vivida na igreja. Nosso processo de crescimento
da fé é permanente; os sacramentos alimentam esse
processo e têm conseqüências na vida. Diante da
importância de assumir uma catequese de feição
catecumenal, é necessário rever, profundamente, não
apenas os “cursos de Batismo e de noivos” e outros
semelhantes, mas todo o processo de catequese em
nossa igreja, para que se pautem pelo modelo do
catecumenato.
4.5. A comunidade: fonte, lugar e meta da catequese
51. Jesus deixou na história uma comunidade viva, a
Igreja, para dar continuidade à sua missão salvífica.
Paulo a define como “uma carta de Cristo, redigida
por nosso intermédio, escrita não com tinta, mas
com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra,
mas em tábuas de carne, os corações!” (2Cor
3,3). A comunidade eclesial conserva a memória
de Jesus, suas palavras e gestos, particularmente
os sacramentos, a oração, o compromisso com
o reino, a opção pelos pobres. Nela se originam
diferentes modelos de santidade, espiritualidade,
transformação cristã da civilização e da cultura (cf.
CR 57-58).
52. por isso, o lugar ou ambiente normal da catequese
é a comunidade eclesial. Onde há uma verdadeira
comunidade cristã, ela se torna uma fonte viva da
catequese, pois a fé não é uma teoria, mas uma
realidade vivida pelos membros da comunidade.
Nesse sentido ela é o verdadeiro audiovisual da
catequese. por outro lado, ao educar para viver a
fé em comunidade, esta se torna, também, uma das
metas da catequese. O verdadeiro ideal da catequese
é desenvolver o processo da educação da fé, através
da interação de três elementos: o catequizando,
a caminhada da comunidade e a mensagem evangélica
(cf. CRiV parte; cf. abaixo 155 e 185). quando não
há comunidade, os catequistas, obviamente, ajudam
a construí-la (cf. CR 311-316)
4.6. Tarefas da catequese
53. Em virtude de sua própria dinâmica interna, a fé
precisa ser conhecida, celebrada, vivida e cultivada
na oração. E como ela deve ser vivida em
comunidade e anunciada na missão, precisa ser
compartilhada, testemunhada e anunciada. A
catequese tem, portanto, as seguintes tarefas (cf.
DGC 85-87):
a) Conhecimento da fé: a catequese introduz o
cristão no conhecimento do próprio Jesus, das
Escrituras Sagradas, da igreja, da Tradição e das
fórmulas da fé, particularmente do Credo Apostólico.
E, nesse sentido, as fórmulas doutrinais
ajudam no aprofundamento do mistério cristão:
é a dimensão doutrinal da catequese.
b) Iniciação litúrgica: para realizar a sua obra
salvífica, Cristo está presente em sua Igreja,
sobretudo nas ações litúrgicas (SC 7). É tarefa
da catequese introduzir no significado e participação
ativa, interna e externa, consciente,
plena e frutuosa dos mistérios (sacramentos),
celebrações, sinais, símbolos, ritos, orações e
outras formas litúrgicas. Na catequese primitiva era
importante essa introdução no sentido
pleno dos sinais e símbolos litúrgicos (mistagogia).
Além do mais, a liturgia, por sua própria
natureza, possui uma dimensão catequética. A
catequese deve ser realizada em harmonia com
o ano litúrgico.7
c) Formação moral: uma tarefa importante da
catequese é educar a consciência, atitudes, espírito
e projeto de vida segundo Jesus.
As bem-aventuranças e os mandamentos, lidos
e praticados
à luz do Evangelho, e com suas conseqüências
éticas e morais, tanto pessoais como sociais,
fazem parte do conteúdo essencial da educa-
ção para as atitudes cristãs, como discípulos
e discípulas de Jesus Cristo (cf. Mt 5,3-12; Ex
19; Dt 5,6-21; Mt 25,31-46). A formação para o
sacramento da penitência contribui para a formação
moral. A coerência da vida dos cristãos
com sua fé é sinal de eficácia da evangelização.
Somente essa coerência poderá evitar os desvios
do materialismo, consumismo, hedonismo e relativismo,
e superar as “estruturas geradoras de
injustiças” e outras formas impostas a um povo
de tradição cristã. É preciso mostrar que a religião,
especialmente o cristianismo, é fermento
de libertação da pessoa e de transformação da
sociedade (cf. DGAE 193).
d) Vida de oração: cabe à catequese ensinar a
rezar por, com e em Cristo, com os mesmos
sentimentos e disposições com os quais Ele se
7
Esse tema será aprofundado mais à frente, 118-122.
dirige ao pai: adoração, louvor, agradecimento,
confiança, súplica, contemplação. O Pai-Nosso é
o modelo acabado da oração cristã (cf. lc 11,1-4;
Mt 6,9-13). O catecumenato, conforme o RICA,
prevê a entrega do livro da Palavra de Deus,
do Credo e do Pai-Nosso. A vida cristã atinge
mais profundidade se é permeada por um clima
de oração, que tem seu cume na liturgia.
A catequese torna-se estéril e infrutífera se reduzida
a um simples estudo ou mera reflexão doutrinal.
e) Vida comunitária: se a fé pode ser vivida em
plenitude somente dentro da comunidade eclesial,
é necessário que a catequese cuide com
carinho dessa dimensão. Os evangelhos ensinam
algumas atitudes importantes para a vida comunitária:
simplicidade e humildade, solicitude
pelos pequenos, atenção para os que erram ou se
afastam, correção fraterna, oração em comum,
amor fraterno, partilha de bens (cf. At 2,42-47;
4,32-35). O ecumenismo e o diálogo inter-religioso
também fazem parte dessa educação para
a vivência em comunidade.
f) Testemunho: a missão do cristão é levar, à sociedade
de hoje, a certeza de que a verdade sobre o
ser humano só se revela plenamente no mistério
do Verbo encarnado. O testemunho de santidade
tornará esse anúncio plenamente digno de fé
(DGAE 81).
g) Missão: o verdadeiro discípulo de Jesus é missionário do reino. “As comunidades eclesiais
tenham viva consciência de que ‘aquilo que uma
vez foi pregado pelo Senhor’ deve ser proclamado e espalhado até os confins da terra” (DGAE
25). Não há, portanto, autêntica catequese sem
iniciação à missão, inclusive além-fronteiras,
como parte essencial da vocação cristã.
5. educação religiosa nas escolas
5.1. Ensino Religioso Escolar distinto da
catequese
54. Tradicionalmente a educação escolar era considerada,
entre outras coisas, um âmbito privilegiado para
a catequese. A sociedade evoluiu para o pluralismo
religioso e, também, para uma generalizada secularização
dos ambientes públicos e dos costumes.
Nesse contexto o Ensino Religioso Escolar (ErE)
no Brasil, reconhecido oficialmente,8
está construindo uma epistemologia própria. A igreja reconhece
que “a relação entre ensino religioso na escola e a
catequese é uma relação de distinção e de complementaridade”
(DGC 73). “Há um nexo indivisível
8
Lei de Diretrizes e Bases, de 20 de dezembro de 1996, lei 9394/96, artigo 33,
substituído pela lei 9.475/97 de julho de 1997 sobre o Ensino religios
e, ao mesmo tempo, uma clara distinção entre
ensino da religião e a catequese” (CR 124-125; cf.
DGC 76). Considerando as mais diversas variantes
na situação dos alunos, e do seu contexto social e
eclesial, urge proceder com realismo e prudência na
aplicação das orientações gerais da igreja particular
e da Conferência dos Bispos (cf. DGC 76).
55. A situação do ErE é distinta nos vários Estados: de
caráter antropológico (cultura religiosa), ecumênico,
inter-religioso e confessional. João paulo ii, falando
às Conferências Episcopais da Europa, afirma
que os alunos “têm o direito de aprender, de modo
verdadeiro e com certeza, a religião à qual pertencem.
Não pode ser desatendido esse seu direito a
conhecer mais profundamente a pessoa de Cristo e
a totalidade do anúncio salvífico que Ele trouxe. O
caráter confessional do Ensino religioso Escolar,
realizado pela igreja segundo modos e formas estabelecidas
em cada país, é, portanto, uma garantia
indispensável oferecida às famílias e aos alunos
que escolhem tal ensino” (DGC 74). As dioceses
empenhem se na formação de profissionais para o
exercício do Ensino religioso Escolar.
5.2. O testemunho dos profissionais católicos
na educação
56. Os cristãos mantenedores de escolas por causa da
fé, ou que atuam como profissionais nas escolas,
permanecem, obviamente, com a missão de evangelizar através do testemunho, da competência
profissional e do diálogo entre ciência e fé, como o
propõe o documento O leigo católico, testemunha
da fé na Escola.
9
5.3. Escola católica
57. Nas escolas católicas existe um imenso campo de
evangelização através principalmente de seu projeto
educativo. A escola leva os valores e o anúncio de
Jesus Cristo, não só através de uma disciplina ou
matéria, no caso, o ErE, mas principalmente através
da estrutura escolar, em particular pelo testemunho
da comunidade educativa e do projeto pedagógico,
à medida que diretores, professores, pais e alunos
— todos os que compõem a comunidade educativa —
vivem efetivamente a fé cristã, desempenham com
competência humana seu papel profissional e existencialmente
assumem um projeto educativo autenticamente cristão.
As diversas iniciativas pastorais
no âmbito escolar, respeitando as diferentes origens
e opções religiosas dos alunos e as orientações da
igreja, manifestam claramente a identidade católica
dessas escolas, e sempre em comunhão com a pastoral
orgânica da igreja (cf. DGC 259).
9
Congregação para a Educação Católica. O leigo católico, testemunha
da fé na escola. Brasília, s.n., 1982. (Caderno da AEC do Brasil, 16.)
58. para a escola católica, há também um nexo e ao
mesmo tempo uma distinção entre Ensino Religioso
Escolar e catequese. A educação religiosa possui
sua natureza própria, diferente da catequese, proporcionando
a educação da religiosidade dos alunos,
o conhecimento das diversas expressões religiosas,
sobretudo do cristianismo, preparando-os para o
respeito ao diferente e dando uma especial atenção
ao estudo objetivo da mensagem evangélica.
A educação religiosa deve penetrar no âmbito da cultura e
relacionar-se com as outras formas do saber humano.
“Como forma original do ministério da palavra,
o ensino religioso torna presente o Evangelho no
processo pessoal da assimilação sistemática e crítica
da cultura” (DGC 73). A escola católica continua
sendo um âmbito privilegiado para esse processo
educativo (cf. AS 133). Nela acontece o exercício
da convivência solidária entre diferentes opções
religiosas e, também, o exercício do ecumenismo,
do diálogo religioso e do diálogo entre cultura e fé
religiosa.
http://catequistabr.dominiotemporario.com/doc/Diretorio_nacional_de_catequese_84.pd