sábado, 31 de agosto de 2013

DIRETÓRIO DA CATEQUESE DOCUMENTOS DA CNBB – 84 INTRODUÇÃO E CAPÍTULO I

DOCUMENTOS DA CNBB – 84
CONGREGATO PRO CLERICIS
DOC. 20062186
VIS TA DA INSTÂNCIA DA CONFERÊNCIA NACIONAL
Bispos do Brasil (CNBB), que em data de 15 de agosto
de 2006 pede a aprovação do Diretório Nacional de Catequese,
aprovado pela 43ª Assembléia Geral da mesma
Conferência em agosto de 2005, a Congregação para
o Clero, examinado o presente texto e depois de ouvir
também o parecer da Congregação para a Doutrina
da fé, segundo a norma do cânon 775, § 2, do Código
de Direito Canônico, n. 282 do Diretório Geral para
a Catequese e o art. 94 da Constituição Apostólica
Pastor Bonus,
concede a necessária aprovação.
A Santíssima e indivisa Trindade abençoe este
serviço de fé, que a Santa igreja do Brasil deseja prestar
à sua glória e em favor de todas as mulheres e homens
do Terceiro Milênio, que, misteriosamente movidos
pelo Espírito Consolador, poderão seguir melhor a
Cristo, a cada dia, iluminados por Maria, Estrela da
evangelização e Virgem de pentecostes.
Vaticano, 8 de setembro de 2006
festa da Natividade de Nossa Senhora
@Csaba Ternyák
Arcebispo tit. de Eminentiana
Secretário
Dario card. Castrillón Hoyos
Pr

APresentAção
A catequese vem recebendo da igreja no Brasil
uma crescente valorização. Comprovam-no os documentos, cursos, encontros, celebrações, mobilizações,
livros, revistas e tantas outras iniciativas, que se multiplicam por este imenso país. Entretanto, a prova mais
evidente desse apreço está na quantidade de catequistas
que se dedicam com grande paixão a esse ministério
vital para a educação na fé, na esperança e na caridade,
daqueles que optam por seguir Jesus Cristo. E também
são milhares as pessoas que, sem serem denominadas
catequistas, o são, de fato, pois exercem essa mesma
missão em nossas comunidades eclesiais.
O Diretório Nacional de Catequese (DNC) foi
solicitado pela Sé Apostólica à Conferência Episcopal
por meio do Diretório Geral para a Catequese (DGC),
em 1997. Ele surge num momento importante em nossa
Igreja. Primeiramente, como confirmação dos acertos
na caminhada de renovação da catequese, desde o
Concílio Vaticano ii (1965), mas, especialmente, desde o Documento Catequese Renovada, Orientações e
Conteúdo (CR), de 1983.
Ele representa um impulso para novos e significativos passos, principalmente rumo a um maior aprofundamento e criatividade na própria ação catequética. E

aqui é importante mencionar, entre outras abordagens, a
catequese bíblica, litúrgica, inculturada e fortalecedora
da eclesiologia de comunhão e participação; a catequese
com adultos e a catequese com forte carga evangélica
para a transformação da sociedade, segundo a Doutrina
Social da igreja.
Há alguns destaques a serem considerados, como
as fontes da catequese, a formação de catequistas, o
catecumenato como modelo referencial para os diversos
tipos de catequese, a pedagogia de Deus, a centralidade
de Jesus Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6), a ação
do Espírito Santo, a catequese para pessoas com defici-
ência, o princípio metodológico da interação entre a fé e
a vida e Maria, mãe e educadora de Jesus e da igreja.
O Diretório Nacional de Catequese é fruto de
um grande trabalho de colaboração. Milhares de mãos
o elaboraram ao logo de mais de três anos, por meio
de um rico processo participativo. E a CNBB, em três
assembléias gerais sucessivas, examinou e aperfeiçoou
este texto. Mesmo assim, o DNC não é um documento
acabado, porque a catequese é dinâmica, criativa, atenta
às necessidades, desafios e potencialidades do mundo
e da igreja.
O Diretório Nacional de Catequese propõe
grandes orientações e linhas de ação para a catequese
nas igrejas particulares que, no Brasil, são marcadas
pela riqueza da diversidade geográfica, histórica, cul-
tural, étnica e religiosa. Elas têm uma longa e preciosa
história, inclusive de catequese, a ser contemplada. E,
além disso, têm características que requerem adaptação
e uma inculturação específica da catequese.
O Diretório Nacional de Catequese foi aprovado
pelos bispos do Brasil, por unanimidade, durante a 43ª
Assembléia Geral da CNBB, em 2005. Em seguida, recebeu a aprovação da Santa Sé, através da Congregação
para o Clero. Agora, os bispos, pastores e mestres da
fé, passam o Diretório para o povo, como um presente
valioso, recordando o pedido do papa João paulo ii:
O vosso papel principal deve ser o de suscitar
e alimentar, em vossas igrejas, uma verdadeira
paixão pela catequese; uma paixão, porém, que se
encarne numa organização adaptada e eficaz, que
empenhe na atividade as pessoas, os meios e os
instrumentos e, também, os recursos financeiros.
podeis ter a certeza disto: se a catequese for bemfeita nas vossas igrejas locais, tudo o mais será
feito com maior facilidade (CT 63).
que Maria, a estrela da evangelização e educadora do filho de Deus e da igreja, acompanhe maternalmente o diálogo da fé que acontece nos grupos de
catequese. que ela os assessore para que cada catequizando e cada catequista possa, a seu exemplo, expressar
com a vida o sim generoso ao chamado e ao envio do
Senhor. que ela, com sua força amorosa de Mãe da
igreja, ajude a levar ao encontro de Jesus Cristo, seu
filho, todos aqueles que estão à procura do caminho, da
verdade e da vida. “Esta é a vida eterna: que conheçam
a ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele
que enviaste” (Jo 17,3).
Esta apresentação não seria completa sem um
agradecimento profundo à Comissão Episcopal pastoral
para a Animação Bíblico-Catequética e à Comissão
encarregada, pela CNBB, de elaborar este Diretório e
acompanhar a sua aprovação: bispos, peritos e assessores convidados a darem sua colaboração. Deus lhes
pague.
Brasília (Df), 30 de setembro de 2006,
memória de são Jerônimo

Dom Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São paulo
Secretário-Geral da CNBB

siglAs e AbreviAturAs
AG Decreto Ad Gentes do Vaticano ii sobre evangelização dos povos
AS Apostolorum Successores – Diretório para o
Ministério Pastoral dos Bispos (2005)
Catecismo João paulo ii, Catecismo da Igreja Católica
(1992-1997)
CD Decreto Christus Dominus do Vaticano ii sobre
o episcopado
CDC Código de Direito Canônico (1983)
Celam Conferência (ou Conselho) Episcopal latino-
Americano
Chl João paulo ii, Christifideles Laici sobre a vocação e missão dos leigos
CMM Dimensão Bíblico-Catequética, Catequese
para um mundo em mudança (Estudos da
CNBB73, 1994)
CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Cr CNBB, Catequese Renovada: orientações e
conteúdo (Doc. da CNBB 26, 2002, 35ª edição;
1ª edição em 1983)
CT João paulo ii, Exortação Apostólica Catechesi
Tradendae (1979)
DCG Congregação para o Clero, Diretório Catequé-
tico Geral (1971)
DGAE Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da
Igreja no Brasil 2003-2006 (Doc. CNBB 71)

DGC Congregação para o Clero, Diretório Geral
para a Catequese (1997)
DH Dignitatis Humanae do Vaticano ii sobre a
liberdade religiosa
DNC CNBB, Diretório Nacional de Catequese
(2002-2005)
DV Constituição Dogmática Dei Verbum do Vaticano ii sobre a revelação
EN paulo Vi, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi sobre a evangelização dos povos (1974)
ErE Ensino religioso Escolar
fC Dimensão Bíblico-Catequética, Formação de
Catequistas: critérios pastorais (Estudos da
CNBB 59, 1990)
Grebin Grupo de Reflexão Bíblica Nacional
Grecat Grupo Nacional de Reflexão Catequética
Grescat Grupo de Escolas Catequéticas
GS Constituição pastoral Gaudium et Spes do Vaticano ii sobre a igreja no mundo de hoje
lG Constituição Dogmática Lumen Gentium do
Vaticano ii sobre a igreja
MpD Sínodo de 1977 sobre a catequese, Mensagem
ao Povo de Deus
NMi João paulo ii, Novo Millennio Ineunte (em 2001,
no término do Grande Jubileu do ano 2000)
p Celam, Documento de Puebla (1979)
pO Presbyterorum Ordinis do Vaticano ii sobre o
ministério e vida dos presbíteros
riCA Sagrada Congregação para o Culto Divino, Rito
de Iniciação Cristã de Adultos (1973/2001)

rMi João paulo ii, Carta Encíclica Redemptoris
Missio sobre a validade permanente do mandato missionário (1990)
SC Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano ii sobre a liturgia
Scala Sociedade de Catequetas latino-americanos
SD Celam, Documento de Santo Domingo (1992)
TM Dimensão Bíblico-Catequética, Textos e Manuais de Catequese: elaboração, análise, avaliação (Estudos da CNBB 53, 1987)
Ur Unitatis Redintegratio do Vaticano ii sobre o
ecumenismo

introdução
“isso que vimos e ouvimos, nós vos
anunciamos, para que estejais em comunhão
conosco” (1Jo 1,3a).
1. Este Diretório Nacional de Catequese (DNC) é
um esforço de adaptação à realidade do Brasil do
Diretório Geral para a Catequese, de 19971
 (cf.
DGC 9, 11, 139, 166 e 171). Nele, portanto, inspira-se, fazendo porém as adaptações necessárias,
que reflitam a caminhada da Igreja e o movimento
catequético brasileiro destes últimos 50 anos.
2. O documento da CNBB Catequese Renovada:
orientações e conteúdo,
2
 que, desde 1983, vem
impulsionando a catequese no Brasil, continua
sendo-lhe uma referência fundamental. Mas, de
1983 para cá, surgiram situações e documentos do
Magistério3
 apontando para a necessidade de novas
1
Congregação para o Clero. Diretório Geral para a Catequese. 1. ed. São
Paulo, Paulinas, 1998.
2
CNBB. Catequese Renovada: orientações e conteúdo. 1. ed. (foram feitas outras
34 edições). São paulo, paulinas, 1983 (Documentos da CNBB 26).
3
Destacamos especialmente: a Exortação Apostólica de João paulo iiCatechesi
Tradendae, em 1979; o Catecismo da Igreja Católica, em 1992; o Diretório Geral
para a Catequese, em 1997; a iV Conferência Episcopal latino-Americana, em
Santo Domingo, em 1992; o Sínodo extraordinário sobre a Igreja na América,

orientações da igreja para reforçar o impulso da
renovação da catequese.
3. A Comissão Episcopal de Animação Bíblico-Catequética da CNBB apresentou, então, à Assembléia
Geral dos Bispos em 2002 uma proposta, que foi
aprovada, de elaboração de um Diretório Nacional
de Catequese. Uma comissão especial nomeada
pela mesma Assembléia logo na primeira reunião
optou por um trabalho através do processo participativo envolvendo dioceses, escolas de catequese e
catequistas. O Instrumento de trabalho n. 1 recebeu
contribuições da Assembléia da CNBB de 2003,
que solicitou a diminuição do texto. Enriquecido,
com mais contribuições vindas de todo o país, mas
ao mesmo tempo sintetizado, o Instrumento de trabalho n. 2 teve o aval da Assembléia da CNBB em
2004, e com novos enriquecimentos foi preparado
e publicado como Instrumento de trabalho n. 3,
para a Assembléia Geral da CNBB de abril de 2005.
Tendo sido esta postergada para agosto do mesmo
ano, por motivo do falecimento do papa João paulo ii, de feliz memória, e, também, por motivo da
em 1997; a Carta Apostólica de João paulo iiNovo Millennio Ineunte, em 2001;
os projetos Rumo ao Novo Milênio, Ser Igreja no Novo Milênio e Queremos ver
Jesus, Caminho, Verdade e Vida; a auto-avaliação da igreja por ocasião dos 500
anos de evangelização do Brasil; a tradução da Bíblia pela CNBB; a Segunda
Semana Brasileira de Catequese, em 2001, com o tema “Com adultos, catequese
adulta” e toda a mobilização em torno dela

eleição do papa Bento XVi, houve nova redação
integrando as contribuições chegadas até junho de
2005, constituindo-se no Instrumento de trabalho
n. 3, em sua quarta versão, que foi apresentada para
apreciação e votação.
1. os diretórios na tradição recente da igreja
4. O primeiro Diretório Catequético Geral da Sé
Apostólica, de 1971, foi publicado por mandato do
Vaticano ii para “tratar dos princípios e do ordenamento fundamentais da formação cristã” (CD
14).4
 O Diretório Geral para a Catequese de 1997
atualizou o anterior. Se o primeiro Diretório (1971)
foi uma resposta do Concílio à velha demanda de
um catecismo universal, o segundo (1997) veio
consagrar o Catecismo da Igreja Católica, surgido
entre ambos, em 1992, e oficialmente ratificado em
1997, e seu Compêndio em 2005.
5. No Diretório Geral para a Catequese encontramos, sobretudo, critérios inspiradores para a
ação catequética e não tanto indicação de normas imperativas, como poderia sugerir talvez
4
Christus Dominus propunha três tarefas para um futuro Diretório Catequético
Geral: 1) oferecer princípios teológico-pastorais fundamentais que orientem
a catequese; 2) propor linhas mais adequadas para uma pastoral catequética e
3) sugerir critérios para a elaboração dos instrumentos adequados (cf. Introdução do DCG).

a palavra diretório. Os Diretórios tornaram-se
quase manuais, vade-mécuns ou compêndios,
um conjunto de princípios, critérios e normas de
natureza bíblico-teológica e metodológico-pastoral com a função de coordenar a ação pastoral.
6. Nosso Diretório Nacional de Catequese, o primeiro
do Brasil, segue essa mesma orientação. pretende
não só relembrar princípios e critérios já conquistados, mas, sobretudo, fazê-los avançar, como
pede o mesmo Diretório Geral para a Catequese:
“Estimular, para o futuro, estudos e pesquisas mais
profundas, que respondam às necessidades da catequese e às normas e orientações do Magistério” (13).
2. Objetivo e finalidades
7. O objetivo geral do Diretório Nacional de Catequese é apresentar a natureza e finalidade da catequese,
traçar os critérios de ação catequética, orientar,
coordenar e estimular a atividade catequética nas diversas regiões. Ele pretende delinear uma catequese
litúrgica, bíblica, vivencial, profundamente ligada à
mística evangélico-missionária, mais participativa
e comunitária.
8. As finalidades deste Diretório são:
a) estabelecer princípios bíblico-teológico-litúrgico-pastorais para promover e impulsionar a
renovação da mentalidade catequética;

b) orientar o planejamento e a realização da atividade catequética nos diversos regionais e dioceses;
c) coordenar as diversas iniciativas catequéticas;
d) articular a ação catequética com as outras
dimensões de nossa pastoral (litúrgica, comunitário-participativa, missionária, dialogal-ecumênica e sociotransformadora);
e) estimular a atividade catequética, principalmente onde as comunidades sentem mais dificuldade
na promoção da educação da fé.
3. Critérios de redação e esquema geral
9. Ao se redigir este Diretório Nacional de Catequese, manteve-se o esquema geral do Diretório
Geral para a Catequese, com adaptações à nossa
realidade, refletindo o movimento catequético bra­
sileiro destes últimos 50 anos. Ele divide-se em
duas partes:
a) Na primeira, de caráter mais de iluminação, são
tratados os fundamentos teológico-pastorais da
catequese, a partir da renovação pós-conciliar.
inicia-se apresentando as conquistas do recente
movimento catequético brasileiro. A seguir, é
aprofundado o tema da revelação e catequese,
correspondendo à primeira parte do Diretório
Geral para a Catequese; aí a catequese se
apresenta bem dentro da missão evangelizadora
daigreja, como atividade de iniciação à fé. Após ter
sido esclarecida a verdadeira tarefa da catequese,
far-se-á, então, uma leitura da nossa realidade
brasileira e da história como lugares teológicos
da manifestação de Deus, correspondendo à
Exposição introdutória do Diretório Geral para
a Catequese. A mensagem e conteúdo da catequese são considerados no capítulo quarto, destacando-se a Bíblia, a liturgia e os catecismos.
b) A segunda parte, de caráter mais prático, compõe-se de quatro capítulos: primeiramente se
analisa a pedagogia catequética tendo como
fundamento a pedagogia divina, modelo da
educação da fé pretendida pela catequese. Enumeram-se no capítulo sexto os destinatários,
considerados como interlocutores no processo
catequético; o capítulo sétimo trata do ministério
da catequese com seus protagonistas; e, por fim,
no último capítulo, são analisados os lugares
e a organização da catequese na igreja local.
i. Fundamentos teológico-pastorais
da catequese
1. Movimento catequético pós-conciliar: conquistas
e desafios
2. A catequese na missão evangelizadora da igreja

3. Catequese contextualizada: história e realidade
4. Catequese: mensagem e conteúdo
ii. orientações para a catequese na
igreja particular
5. Catequese como educação da fé
6. Destinatários como interlocutores no processo
catequético
7. O ministério catequético e seus protagonistas
8. lugares da catequese e sua organização na igreja
particular
Conclusão

I Fundamentos teológico-pastorais da Catequese e seu Contexto
Capítulo 1
movimento CAtequétiCo
Pós-ConCiliAr:
ConquistAs e desAFios
“Vós sois as testemunhas destas coisas”
(lc 24,48).
1. renovação catequética à luz do Concílio
ecumênico vaticano ii
10. Com o Vaticano ii, a igreja no Brasil renovou-se
significativamente, animada, entre outras coisas, pelos
planos de pastoral, diretrizes e documentos. Sob o
influxo da VI Semana Internacional de Catequese
e da ii Conferência Geral do Episcopado da Amé-
rica latina, ambas em Medellín (1968), a catequese
tomou novos rumos à luz de uma eclesiologia e
cristologia mais voltadas para a situação difícil vivida
pelo povo. Nascia ali um novo modelo de catequese
que, para melhor encarnar a doutrina, acentuava
também a dimensão situacional, transformadora
ou libertadora. As comunidades eclesiais passaram
a favorecer uma educação da fé, ligada mais à vida
da comunidade, aos problemas sociais e à cultura

popular. A opção pelos pobres fez a catequese rever sua metodologia e, sobretudo, seus conteúdos.
A formação das(os) catequistas1
 recebeu especial
atenção, principalmente através da multiplicação
de escolas catequéticas. Em termos de organiza-
ção, houve maior articulação nacional do trabalho
catequético por meio dos organismos da CNBB.
11. As conquistas catequéticas pós-conciliares, estimuladas pelo Diretório Catequético Geral (DCG,
1971), pelo Sínodo sobre Evangelização (1974)
e pela Carta Apostólica de paulo Vi Evangelii
Nuntiandi (EN, 1975), concretizaram-se no Sínodo
sobre a Catequese (1977) e na Exortação Apostólica
que se lhe seguiu Catechesi Tradendae (CT, 1979).
No Brasil, foi de especial importância o texto da
CNBB Catequese Renovada: orientações e conteú-
do (1983). Surgido inicialmente como resposta à
necessidade de renovar o conteúdo da catequese, sua
elaboração enveredou pela busca dos princípios e
diretrizes básicas da ação catequética. foi fruto de
ampla movimentação nacional, com participação de
comunidades, catequistas, estudiosos e pastores.
12. A catequese, a partir de 1983, em geral assumiu
estes eixos centrais: a Bíblia como texto principal,
1
Neste Diretório Nacional de Catequese, por motivos gramaticais, o termo
catequista sempre será usado no masculino, referindo-se tanto às mulheres
como aos homens. O mesmo se diga quanto coordenador(a), religioso(a),
leigo(a), discípulo(a), irmão(a) etc.


os momentos celebrativos, o princípio de interação
fé e vida, o valor e importância da caminhada da
comunidade de fé como ambiente e conteúdo de
educação da fé. Aprofundando o documento Catequese Renovada e atualizando a reflexão em torno
dos novos desafios, outros textos foram surgindo.2
2. Características da Catequese Renovada
13. As principais características do documento Catequese Renovada e de sua práxis posteriorsão:
a) Catequese como processo de iniciação à vida
de fé: é o deslocamento de uma catequese
simplesmente doutrinal para um modelo mais
experiencial, e da catequese das crianças para a
catequese com adultos. Tanto a dimensão doutrinal como a da experiência estão integradas no
2
São textos produzidos pelo Grupo Nacional de Reflexão Catequética (Grecat),
fundado em 1983, porém com antecedentes desde a década de 1960. São os
seguintes: Textos e manuais de catequese: orientações para sua elaboração,
análise e avaliação = Estudos da CNBB 53, 1987; Primeira Semana Brasileira
de Catequese = Estudos da CNBB 55, 1987; Formação de catequistas: critérios
pastorais = Estudos da CNBB 59, 1990; Orientações para a catequese de
crisma = Estudos da CNBB 61, 1991; Catequese para um mundo em mudan-
ça = Estudos da CNBB 73, 1994; O hoje de Deus em nosso chão = Estudos
da CNBB 78, 1998; Com adultos, catequese adulta = Estudos da CNBB 80,
2001; Itinerário da fé na “iniciação cristã de adultos” = Estudos da CNBB 82,
2001; Segunda Semana Brasileira de Catequese = Estudos da CNBB 84, 2002;
Crescer na leitura da Bíblia = Estudos da CNBB 86, 2003; Ler a Bíblia com a
Igreja: comentário didático popular à Constituição dogmática Dei Verbum =
projeto Nacional de Evangelização “queremos ver Jesus...” 11, 2004

processo de tornar-se discípulo de Jesus. Começa
a delinear-se um modelo metodológico que leva à
experiência de Deus que se expressa, sobretudo,
na vida litúrgica e orante.
b) Iniciação à vida de fé em comunidade: conforme
a pedagogia de Deus, Ele se revela no dia-a-dia
de pessoas que vivem em comunidade. A catequese é concebida como uma iniciação à fé em
sua dimensão pessoal e comunitária.
c) Processo permanente de educação da fé: se a
catequese é o momento da iniciação à fé, a formação cristã se prolonga pela vida inteira. Além
das crianças, os adultos começam a merecer
maior atenção.
d) Catequese cristocêntrica: conduz ao centro do
Evangelho (querigma), à conversão, à opção por
Jesus Cristo que nos revela o pai, no Espírito
Santo (dimensão trinitária), e ao seu seguimento.
A catequese está a serviço da pessoa humana em
sua situação concreta (dimensão antropológica).
por isso ela educa para a vivência do mistério
d’aquele que revelou o homem ao homem, o novo
Adão, Jesus Cristo. É uma catequese cristoló-
gica com dimensão antropológica, que leva a
uma antropologia com dimensão cristológica.
e) Ministério da Palavra: a catequese é considerada anúncio da palavra de Deus, a serviço da
qual se coloca. O verdadeiro catequista tem a

convicção (mística) de que é profetahoje, comunicando a palavra de Deus com seu dinamismo
e eficácia, na força do Espírito Santo. A Bíblia
é considerada o livro da fé e, por isso mesmo,
o texto principal da catequese. O princípio da
interação fé e vida, aplicado à leitura da Bíblia,
gera um tipo de leitura vital e orante da palavra
de Deus.
f) Coerência com a pedagogia de Deus: a renovação da catequese assume a doutrina sobre a
revelação, contida na Dei Verbum, com suas
conseqüências. O modo de educar a fé segue o
mesmo “processo e pedagogia” que Deus usou
para revelar-se, isto é: revelação progressiva
através de palavras e acontecimentos, por dentro
da vida da comunidade, o respeito pela caminhada da comunidade, o amor pelos pobres e a
conseqüente paciência (em sentido bíblico) no
processo de educação da fé.
g) Catequese transformadora e libertadora: a mensagem da fé, iluminando a existência humana,
forma a consciência crítica diante das estruturas
injustas e leva a uma ação transformadora da realidade social. Catequese Renovada introduziu o
conceito de ações evangélico-transformadoras
como aprofundamento do tradicional conceito de
atividades pedagógicas. A catequese tem por
tarefa introduzir o cristão nestas ações, “inspi-
0
radas pela experiência de Deus na caminhada
da comunidade; [elas] educam evangelicamente
para as mudanças do ambiente que nossa fé exige
e inspira”.3
h) Catequese inculturada: a catequese quer
valorizar e assumir os valores da cultura, a
linguagem, os símbolos, a maneira de ser e
de viver do povo nas suas diversas expressões
culturais. A inculturação está presente em
Catequese Renovada, embora o termo não
apareça explicitamente. fala-se de interação fé
e vida, com vistas principalmente a aspectos
sociais, políticos e econômicos. isso facilitou
posteriormente a compreensão da necessidade
de assumir e valorizar os elementos da cultura,
da linguagem, dos símbolos que fazem parte da
maneira de viver do povo. Expressar o Evangelho de forma relevante para a cultura é uma
exigência metodológica da catequese. Como
afirmou João Paulo II: “Não é a cultura a medida
do Evangelho, mas Jesus Cristo é a medida de
toda a cultura e de toda obra humana” (Santo
Domingo, Discurso de abertura, 2; cf. 13, nota
2). Não se trata só da cultura popular, ligada
3
CNBB, TM 129; cf. 129-131 e 194-200. Esse documento aprofunda o conceito
de atividades evangélico-transformadoras que têm sua origem nas práticas das
CEBs. Cf. abaixo 152 e 301-302.
mais ao ambiente rural e às vezes pré-moderno,
mas também da cultura surgida da modernidade
e pós-modernidade, cujo lugar privilegiado são
os grandes espaços urbanos.
i) Interação fé e vida: o conteúdo da catequese
compreende dois elementos que interagem: a
experiência da vida e a formulação da fé. A
afirmação do princípio de interação é a recusa
tanto do excesso da teoria desligada da realidade,
quanto do dualismo que desvaloriza as necessidades do aqui e agora, da vida terrena dos filhos
de Deus.
j) Catequese integrada com as outras pastorais:
como dimensão, a catequese está presente em
todas as pastorais e, como atividade específica,
articula-se com as demais. A catequese respira
a vida e a fé da igreja, celebrada na liturgia,
expressa na prática pastoral das comunidades e
nas suas orientações. A catequese se beneficia
dessa articulação ao mesmo tempo que contribui
para uma pastoral orgânica ou de conjunto.
k) Caminho de espiritualidade: um dos temas
centrais da formação do catequista é sua espiritualidade: ela brota da vida em Cristo, que se
alimenta na ação litúrgica e se expressa a partir
da própria atividade de educador da fé, da mística daquele que está a serviço da palavra de
Deus. É uma espiritualidade bíblica, litúrgica,
2
cristológica, trinitária, eclesial, mariana e encarnada na realidade do povo.4
l) Opção preferencial pelos pobres: a igreja redescobriu os pobres não apenas como categoria
sociológica, mas sobretudo teológica; considera-os destinatários de sua missão e evangelizadores. Não se trata de um tema da catequese,
mas de uma perspectiva geral, que orienta
concretamente objetivos, sujeitos e destinatários,
conteúdo, métodos, recursos e a própria forma-
ção de catequistas.
m)Temas e conteúdo:Catequese Renovada descreveu em sua terceira parte os temas fundamentais
da catequese. Trata-se de um conjunto de mensagens a ser adaptado aos destinatários quanto
à seleção de temas, linguagem, metodologia.
Deseja-se principalmente que esse conteúdo de
mensagens seja vivido na caminhada da comunidade. O eixo central que permeia a apresentação
da mensagem é o da comunhão-participação
num processo comunitário. A quarta parte do
documento descreve o processo pelo qual interagem o conteúdo da fé e a transformação da
vida pessoal e social.
4
Cf. CNBB, FC 157. Após o documento CR, houve e continua havendo um
impulso considerável tanto para a vocação de catequistas, quanto para a práxis
da mesma catequese em diversas instâncias.
3. Alguns desafios
14. Depois de mais de duas décadas da primeira edição
de Catequese Renovada, podemos identificar hoje
alguns desafios mais significativos, dentre tantos
que surgem em nossa tarefa catequética:
a) criar maior unidade na pastoral catequética,
organizando melhor a catequese nos diversos
níveis (regional, diocesano, paroquial) e pondo
em prática as orientações que já existem;
b) formar catequistas como comunicadores de experiências de fé, comprometidos com o Senhor e
sua igreja, com uma linguagem inculturada que
seja fiel à mensagem do Evangelho e compreensível, mobilizadora e relevante para as pessoas
do mundo de hoje, na realidade pós-moderna,
urbana e plural;
c) fazer da Bíblia realmente o texto principal da
catequese;
d) fazer com que o princípio de interação fé e vida seja
assumido na atividade catequética de modo que o
conteúdo responda aos desafios do mundo atual;
e) suscitar nos catequistas e catequizandos o sentido do valor da celebração litúrgica, da dimensão
orante na catequese e o amor pela comunidade;
f) assumir o processo catecumenal como modelo
de toda a catequese e, conseqüentemente, inten-
sificar o uso do Ritual de Iniciação Cristã de Adultos
(RICA);
g) passar de uma catequese só orientada para os
sacramentos, para uma catequese que introduza
no mistério de Cristo e na vida eclesial;
h) integrar na catequese as conquistas das ciências
da educação, particularmente a pedagogia contemporânea, discernida à luz do Evangelho;
i) fazer com que a catequese se realize num contexto comunitário, seja um processo de inserção
na comunidade eclesial e que essa seja catequizadora;
j) incentivar a instituição do ministério da catequese;
k) tornar efetiva a prioridade da catequese com
adultos como resposta às novas exigências da
evangelização e como pedem a Catequese Renovada 130 e a Segunda Semana Brasileira de
Catequese;
l) incentivar a catequese junto a pessoas com deficiência;5
m)assumir na catequese a vida e os clamores dos
marginalizados e os excluídos;
5
Neste Diretório Nacional de Catequese usaremos a nomenclatura oficial
brasileira (cf. Diário Oficial do Senado Federal de 17 de outubro de 2003,
pp. 32745-32746 e ss) e em consonância da Campanha da Fraternidade de
2006.
n) motivar e estimular os catequistas e catequizandos para o compromisso missionário e social da
fé, assumido no sacramento da Confirmação;
o) buscar parcerias com a pastoral da juventude,
missionária e outras, atingindo assim mais pessoas nesse processo

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